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Hésio Cordeiro é homenageado no Congresso Científico do HUPE
Data: 5/9/2017

O texto abaixo foi escrito e lido por José Augusto Messias, professor da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e membro da Academia Brasileira de Medicina

O tema do nosso Congresso, “Para além do Hospital de Ensino: a Universidade Pública na Construção de um SUS mais Justo”, ciência na festa do nosso aniversário, e o personagem desta homenagem, fundem-se em símbolo, farol, a nos orientar na tormenta em que a sociedade brasileira se vê, atualmente, imersa.

Nas origens do Hospital Pedro Ernesto, anos 1930, há conceitos que deságuam no nosso homenageado de hoje, Hésio de Albuquerque Cordeiro.

Pedro Ernesto do Rego Batista, médico, prefeito do Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro, naquela época de profundas mudanças políticas no país, e as primeiras tentativas de transformação da República Velha numa nação democrática e inclusiva, pautou seu mandato por priorizar duas áreas estruturantes destes objetivos: A EDUCAÇÃO e a SAÚDE!

Na educação, confiou os trabalhos a Anísio Teixeira referencial, até hoje, neste campo. E da saúde, ele mesmo tomou conta.

Similia similibus curantur! A analogia homeopática dos iguais aplica-se a Pedro Ernesto e Hésio? Tentemos…

Valho-me, como justificativa, da permanente controvérsia judaica, entre seculares e ortodoxos, sobre o passado (a tradição) e que, aqui, podemos extrapolar para a história. Ela está sintetizada na pergunta: nosso passado foi entregue em nossas mãos ou nós fomos entregues ao nosso passado? Renovar ou conservar imutável? É impossível renovar sem ter (conhecer) aquilo que foi antes e, sem renovar não há futuro!

Nosso Pedro Ernesto, médico e cidadão, participou ativamente dos movimentos renovadores da política nacional, ao lado de personagens como Luis Carlos Prestes, do Movimento Tenentista, da fundação do Clube 3 de Outubro, agremiação para a coesão dos revolucionários históricos da época, tudo em decorrência do movimento que propiciou, anos antes, 1930, a deposição de Washington Luiz, o impedimento de Júlio Prestes e a posse de Getúlio Vargas. Findava a Velha República, a do “café com leite”… ou de cooptação, compadrio…tão atual!

No Rio de Janeiro, participou da fundação do Partido Autonomista do Distrito Federal que elegeu, majoritariamente, a Assembléia Nacional Constituinte de 1933 e, no nível municipal, em 1934, teve ampla vitória para a Câmara Municipal do Distrito Federal. Ali, em sufrágio parlamentar, foi o primeiro governante eleito da cidade.

Como afirmamos anteriormente, pautou seu mandato por priorizar duas áreas estruturantes destes objetivos: A EDUCAÇÃO e a SAÚDE!

Na educação, confiou os trabalhos a Anísio Teixeira, signatário do Manifesto dos pioneiros da Educação Nova, de 1932, partidários de um sistema educacional público, sem ônus direto para os alunos, obrigatório e laico. É referência, até hoje, neste campo.

E da saúde, ele mesmo tomou conta em associação com seu Diretor do Departamento de Saúde, Gastão Guimarães.

No contexto desta época, a construção de um grande hospital em Vila Isabel junto com outros, em Santa Cruz, Campo Grande, Penha, Méier, Ilha do Governador e Paquetá, modernos e equipados, que permitissem o acesso da população, principalmente os necessitados, a serviços médicos e sociais continuados, para além dos atendimentos de emergência da rede de Pronto Socorro, já existente, configurou-se como uma mudança de paradigma! Os equipamentos de saúde próximos da população… e, da mesma forma, públicos! Paralelamente a esta ação diretamente assistencial, realizou obras de saneamento importantes, especialmente, nos bairros suburbanos da cidade.

Na legislação social, criou a Assistência Médico-Cirúrgica para os funcionários municipais e seu Montepio, regularizando os seus pagamentos! Similia similibus aos nossos tempos atuais… quanta ironia!

E, com a criação do Departamento de Turismo, inaugurou importante fonte financiadora dos seus programas de educação e saúde. Os movimentos políticos da época, infelizmente, resultaram na sua prisão e, em 1937, à instalação da ditadura de Getúlio Vargas, dita do Estado Novo. Retirou-se da vida pública.
Curiosidade: formado médico em 1908, Pedro Ernesto desenvolveu intensa e respeitada carreira como cirurgião. Sua clínica, muito prestigiada por comerciantes portugueses da cidade, floresceu na Casa de Saúde Pedro Ernesto, inicialmente na Rua do Riachuelo e, a partir de 1923/24, nas novas e modernas instalações à Rua Henrique Valadares.
Perceberam? Pois é! Após sua morte, em 1942, seu hospital será destinado e transforma-se no hospital do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (IASERJ).
Mutatis mutandis, chegamos ao nosso homenageado: Hésio de Albuquerque Cordeiro!
Homenagem é palavra provençal (omenatge) que, na idade média feudal, denominava uma cerimônia anual em que os suseranos do senhor feudal o reverenciavam, reconhecendo sua autoridade e agradecendo suas ações. Quem homenageia está súcubo do homenageado; submete-se a sua precedência e autoridade! Hésio, hoje, assim estamos…
Hésio, Similia mutandis, circunstâncias e épocas outras à de Pedro Ernesto, também interferistes e transformastes nossa realidade sanitária. Além disto, o fizestes a partir da Universidade, ente do Estado, formadora de profissionais qualificados e criadora de saberes transformadores das realidades. E o fizeste bem!
Nascido no ano que Pedro Ernesto morreu, 1942, este mineiro de nascimento e carioca de espírito, formou-se médico, pela então Universidade do Estado da Guanabara (UEG), nossa UERJ atual, em 1965. Nos primeiros anos de vida médica, sob o exemplo e proteção do Professor Américo Piquet Carneiro, definia-se como “clínico competente e dedicado”! Autoestima só comparável aos nascidos no Recife que afirmam: os rios Capiberibe e Beberibe, ao se juntarem na sua foz, formam o oceano Atlântico… só rindo, mas, não, do nosso homenageado!
Nesse qüinqüênio, já iniciado sob a tutela militar de Castelo Branco, vimos consolidar-se, em 1968, de novo, com a edição do Ato Institucional número 5, o do dito “às favas com os escrúpulos”, o regime ditatorial no Brasil. E, na UERJ, no mesmo ano, com o brutal atentado da Polícia Militar do Rio de Janeiro ao seu Hospital de Clínicas, hoje o nosso Pedro Ernesto, que só não resultou na sua invasão pela resistência de alunos, professores e servidores liderados, entre outros, pelo Professor Américo Piquet Carneiro. Calouro, eu, tenho esse dia manchado pelo assassinato do aluno do segundo ano, da Faculdade de Ciências Médicas, Luiz Paulo da Cruz Nunes, mortalmente atingido na cabeça, nessa data, 22 de outubro de 1968.
Resistir é preciso! E a UEG/UERJ resistiu!
Nos 20 anos seguintes, duros, germinou, floresceu e consolidou-se, no campo teórico e prático, o movimento da Reforma Sanitária. Seu fruto maior, cristalizado na Constituição Federal de 1988, no seu artigo 196, estabelece, ipsis litteris: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução dos riscos de doenças e outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Seu complemento, a Lei 8.080, de 1990, cria o Sistema Único de Saúde (SUS) e, suas regulamentações posteriores, o consolidam.
Um desafio permanente, porém, marco conceitual fundamental da dignidade humana e da relação ética do Estado com os seus cidadãos! O Leviatã do bem… O tema central do nosso 550 Congresso Científico, repetindo, “Para além do Hospital de Ensino: a Universidade Pública na Construção de um SUS mais Justo”, corrobora a noção, em 2017, do desafio permanente.
O nosso homenageado, Hésio de Albuquerque Cordeiro, junto com uma plêiade de outros personagens, foi protagonista dessa resistência meritória!
Nesta síntese oratória, quase uma epifania, sendo esta a súbita sensação do entendimento ou compreensão da essência de algo, e, também dita, como a realização de um sonho com difícil realização, buscamos exemplos que a justifiquem para o nosso homenageado. São muitos.
Na nossa UERJ, comecemos pela evolução do que, à época, denominávamos Higiene e Saúde Pública para os atuais, e mais apropriados, conceitos e ações de Saúde Coletiva, aqui consolidados no Instituto de Medicina Social (IMS). Hésio lá estava!
Sem temer as omissões inevitáveis, citamos Nélson Luis de Araújo Moraes, Carlos Gentile de Melo, Mário Chaves, José Pelúcio Pereira, Juan César Garcia, José Roberto Ferreira, Fábio Celso de Macedo Soares que, com a liderança, de novo, do Professor Américo Piquet Carneiro, estabeleceram as novas bases teóricas para o Instituto sem nunca esquecer da práxis que o justificaria. Quase um imperativo categórico, no campo da saúde, o da indissociabilidade entre o discurso e a ação!
Sem a pretensão de um salto quântico, chego em 1979. Ano em que, junto com Reinaldo Guimarães e José Luis Fiori, publica “A Questão Democrática na Área da Saúde” que serviu de base para o conjunto de documentos e ações do movimento da Reforma Sanitária e tutti quanti dele se apropriaram e aperfeiçoaram, ao longo do tempo.
Particularmente, pelas atividades promovidas pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), até a VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986, onde, sob a Coordenação do Professor Antônio Sérgio da Silva Arouca, na Comissão Organizadora e Hésio membro da mesma, firmaram-se, definitivamente, a base do vate constitucional de 1988, “A Saúde como Direito do Cidadão e Dever do Estado” e o escopo da Lei 8.080, de 1990, que cria o Sistema Único de Saúde (SUS).
Isto é a história! E, há que se ressaltar, o contexto. O arco de tempo sobre que conversamos, até agora, no tempo da vida do nosso homenageado, 1965 a 1988, corresponde a todo o período feraz e feroz da ditadura militar no Brasil, acrescidos de uns poucos 3 anos de uma redemocratização incipiente, quase um bebê de alto risco internado numa UTI neonatal…
Para além do mérito intrínseco, moral e técnico, do que se conseguiu, há que se desassombrar, neste contexto, o feito de consolidar uma proposta de base social, por direitos fundamentais da pessoa humana, que desestrutura as práticas de exclusão, atua para diminuir as desigualdades e resgata a cidadania, tornando o país, um país mais justo! Sonho a se realizar? Sim. Mas o caminho foi aberto e estamos caminhando…
Atravessado o Rubicão, qual Júlio César em 49 AEC, derrotando a República de Pompeu e estabelecendo o Império Romano, e ao reverso deste, o nosso Rubicão atravessado, com Hésio nas legiões, desestabilizou um império da força pela idéia republicana da democracia! Aleluia…
Agora, Hésio, ao trabalho! E assim o fizestes…
No IMS/UERJ, chegastes a ser Diretor; na UERJ, fostes Reitor; na vida pública, alcançastes a Presidência do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (e com a lembrança do saudoso Professor Aloysio de Salles Fonseca); na vida acadêmica, tanto para a graduação como para a pós-graduação, lato e stricto sensu, mantem-se ativo; desafios práticos e simbólicos, caudais da mente democrática genuína, além dos já citados, exercestes a Direção da Agência Nacional de Saúde Suplementar, vinculada ao Ministério da Saúde; e, última citação, de cunho afetivo, é Professor Honoris Causa da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, que sintetiza, aqui, o sentido dado a esta homenagem, antítese da omenatje ocitana, provençal, qual seja, não à força medieval do feudo mas o mérito do saber que concede honra!
Similia similibus actum!
E, por aqui, ficamos para não transformamos uma homenagem numa lista de ingredientes para elogios…
À Bertrand Russel, aos 92 anos de idade, perguntaram-lhe: “o que escreverias para ser lido pelos jovens, daqui a cem anos, como fundamentos das suas vidas?”
Ele respondeu:
“Duas coisas: uma atitude intelectual de ater-se aos fatos e, outra, uma atitude moral, interpretar os fatos com amor que te permitirá ser tolerante com as diferenças”.
Parabéns Hésio Cordeiro de Albuquerque, doutor da democracia na saúde. Cem anos antes as cumpristes!
Vida longa…
Como queríamos demonstrar!



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